Recebi um artigo do deputado estadual Amauri Soares (PDT), o Sargento Soares, que se posiciona contrário ao novo Código Ambiental de Santa Catarina. Decidi publicá-lo nem tanto pelo fato de ter posicionamento semelhante ao meu - leia as notas Francamente! e Até quando ??!! -, mas por trazer argumentos claros e ousados.
Segue o texto enviado pelo deputado:
" Infelizmente, os detentores do poder econômico detém também o poder político. O agronegócio fez valer sua força, exigindo dos deputados, cujas campanhas financiam, o voto obediente e cego. A maioria das pessoas não percebem que, quando falam em nome dos pequenos agricultores, estão, na verdade, defendendo o agronegócio e as madeireiras. A minoria dos deputados, que não tem amarras com o poder econômico e nem deve favor político ao governo, infelizmente não consegue virar esse jogo.
O que chamam de democracia é um embuste, pois os interesses econômicos dos grandes sempre prevalecerão com o atual modelo representativo. O que nos resta, aos poucos que não temos e não queremos ter parte nesse jogo - onde a maioria do povo e os interesses gerais sempre perdem - é continuar fazendo a denúncia.
Sei que é pouco, mas é o que podemos fazer, esperando o surgimento de uma nova consciência, que poderá colocar tudo isso pelos ares. Os conscientes são a minoria e as coisas só mudarão quando forem a maioria"
quarta-feira, 15 de abril de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
Texfair sem Texfashion

A bola ficou dividida na organização do Texfashion, que este ano ficará de fora da Texfair, a feira blumenauense da indústria têxtil. Alguns, pensando na economia, preferiram abrir mão do evento; outros, gostariam de vê-lo mantido. A essa altura do campeonato, foi bom sinal esta divergência.
Afinal, ela mostra que nem todas as empresas sentem-se intimidadas pela crise mundial. E estão nesta condição, pois, devido ao fato de que não sentiram tão grande impacto no fluxo de caixa, à despeito dos solavancos da máquina capitalista. Aos que preferiram a cautela, porém, é preciso dar um voto de confiança. Cada um sabe qual a melhor maneira de cuidar da própria saúde financeira.
Penso, no entanto, que a manutenção do desfile poderia ser um diferencial até mais robusto agora. Muitos lojistas, também de olho na economia em tempo de crise, talvez reduzam o número de feiras visitadas este ano. Se iam a três ou quatro, às vezes mais, em anos de efervescência econômica, talvez escolham apenas uma ou duas em 2009. E daí vão escolher pelos atrativos, pela presença do evento na mídia, etc e tal. Os desfiles do Texfashion, nesta ótica, nos dão grande visibilidade. Com a presença de celebridades e modelos de alto gabarito, já tem espaço cativo na agenda da moda catarinense.
Afinal, ela mostra que nem todas as empresas sentem-se intimidadas pela crise mundial. E estão nesta condição, pois, devido ao fato de que não sentiram tão grande impacto no fluxo de caixa, à despeito dos solavancos da máquina capitalista. Aos que preferiram a cautela, porém, é preciso dar um voto de confiança. Cada um sabe qual a melhor maneira de cuidar da própria saúde financeira.
Penso, no entanto, que a manutenção do desfile poderia ser um diferencial até mais robusto agora. Muitos lojistas, também de olho na economia em tempo de crise, talvez reduzam o número de feiras visitadas este ano. Se iam a três ou quatro, às vezes mais, em anos de efervescência econômica, talvez escolham apenas uma ou duas em 2009. E daí vão escolher pelos atrativos, pela presença do evento na mídia, etc e tal. Os desfiles do Texfashion, nesta ótica, nos dão grande visibilidade. Com a presença de celebridades e modelos de alto gabarito, já tem espaço cativo na agenda da moda catarinense.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
A novela sem fim
Eu, depois da longa hora de conversa que tivemos com o deputado federal José Carlos Vieira (DEM), na quinta feira, desenvolvi mais duas linhas de pensamento sobre a demora no repasse de recursos federais para a reconstrução da cidade: para mim, a culpa pode ser do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), ou do governo de Santa Catarina, na mais lastimável de todas as hipóteses. Lula não tem nada a ver com isso, foi o que pude depreender.
- O presidente Lula até gostaria de repassar os recursos diretamente para os municípios, mas o ministro não tem o mesmo entendimento - comentou o deputado no encontro que tivemos.
É uma informação pra lá de importante, pois vem de um opositor do PT e do Governo Federal.
Há cerca de um ano, li na revista Veja que o ministro constroi um feudo político na Bahia, priorizando o Estado com as verbas de seu ministério. A meta do Geddelzão, na verdade, é substituir o falecido Antônio Carlos Magalhães no coração e no voto dos baianos. O que ele puder dificultar para os demais estados e facilitar para o seu, então, fará. Assim, com a justificativa da burocracia, seca a torneira por aqui e faz a água jorrar mais fartamente por lá.
O PMDB catarinense, por sua vez, deve disputar uma eleição acirrada com o Democratas no ano que vem - a menos que o senador Raimundo Colombo (DEM) não consiga capitalizar novamente os mais de 1 milhão de votos que recebeu em 2006, quando se elegeu para o Senado. Nesta ótica, o enfraquecimento do principal reduto democrata hoje no Estado - Blumenau - seria mais do que estratégico. E para isso, o retardamento do processo de reconstrução seria um tiro certeiro. Cá entre nós, não entendi bem até agora porque o governo do Estado fez tanta questão de centralizar a gestão dos recursos destinados à reconstrução. Logo um pepinão desses, que ninguém quer descascar. É muito estranho.
Enfim, seja de quem for a culpa, quem sofre somos nós. Passou da hora dos políticos pararem com esse tipo de comportamento, precisam aprender a se unir em momentos de dificuldade como esse.
- O presidente Lula até gostaria de repassar os recursos diretamente para os municípios, mas o ministro não tem o mesmo entendimento - comentou o deputado no encontro que tivemos.
É uma informação pra lá de importante, pois vem de um opositor do PT e do Governo Federal.
Há cerca de um ano, li na revista Veja que o ministro constroi um feudo político na Bahia, priorizando o Estado com as verbas de seu ministério. A meta do Geddelzão, na verdade, é substituir o falecido Antônio Carlos Magalhães no coração e no voto dos baianos. O que ele puder dificultar para os demais estados e facilitar para o seu, então, fará. Assim, com a justificativa da burocracia, seca a torneira por aqui e faz a água jorrar mais fartamente por lá.
O PMDB catarinense, por sua vez, deve disputar uma eleição acirrada com o Democratas no ano que vem - a menos que o senador Raimundo Colombo (DEM) não consiga capitalizar novamente os mais de 1 milhão de votos que recebeu em 2006, quando se elegeu para o Senado. Nesta ótica, o enfraquecimento do principal reduto democrata hoje no Estado - Blumenau - seria mais do que estratégico. E para isso, o retardamento do processo de reconstrução seria um tiro certeiro. Cá entre nós, não entendi bem até agora porque o governo do Estado fez tanta questão de centralizar a gestão dos recursos destinados à reconstrução. Logo um pepinão desses, que ninguém quer descascar. É muito estranho.
Enfim, seja de quem for a culpa, quem sofre somos nós. Passou da hora dos políticos pararem com esse tipo de comportamento, precisam aprender a se unir em momentos de dificuldade como esse.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Deputado prestigia Reage Blumenau

Convidado por meu colega blogueiro Fabrício Wolff, participei hoje de um encontro com o deputado federal José Carlos Vieira (DEM), conforme registro fotográfico de Daniel Zimmermann. Vieira esteve em Blumenau e procurou o Fabrício para conversar sobre a campanha Reage Blumenau. O movimento, criado pelo blog "Penso, logo insisto", teve o meu apoio e consistiu em uma cadeia de e-mails enviados a deputados federais e senadores. O conteúdo era o mesmo em todas as mensagens: um protesto contra a falta de recursos federais para a reconstrução da cidade. Repercutiu e muito em Brasília.
No dia 19 de março escrevi aqui um artigo intitulado Deboche. Expus ali minha desconfiança de que poderia haver motivações políticas por trás do atraso na liberação dos recursos prometidos pelo presidente Lula. Hoje, aproveitei para perguntar qual a opinião do deputado sobre o assunto. Polido, evitou semear a discórdia. Mas comentou:
- Dizem que lá na Bahia - estado do Ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), o dinheiro chegou mais rápido.
O democrata desconversou, mas deixou transparecer que nuances políticas na esfera estadual também poderiam estar contribuindo para o problema. A burocracia, no entanto, é o maior inimigo, avalia Vieira. Para agilizar a liberação de verba federal nestes casos, observa, é preciso mudar a lei. Para tanto, destaca, é necessário que o Governo federal apresente uma proposta, pois os deputados não podem legislar sobre o assunto, segundo ele.
_ Na Alemanha, o tal do Avadan consiste numa simples folha de papel A4, assinada pelo município e pelo governo federal. Aqui, uma série de documentos e trâmites atrasa o processo.
Como membro da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados, Vieira propôs uma audiência pública sobre a situação do Vale. Ela ocorre na terça-feira, às 14h30, na Câmara.
No dia 19 de março escrevi aqui um artigo intitulado Deboche. Expus ali minha desconfiança de que poderia haver motivações políticas por trás do atraso na liberação dos recursos prometidos pelo presidente Lula. Hoje, aproveitei para perguntar qual a opinião do deputado sobre o assunto. Polido, evitou semear a discórdia. Mas comentou:
- Dizem que lá na Bahia - estado do Ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), o dinheiro chegou mais rápido.
O democrata desconversou, mas deixou transparecer que nuances políticas na esfera estadual também poderiam estar contribuindo para o problema. A burocracia, no entanto, é o maior inimigo, avalia Vieira. Para agilizar a liberação de verba federal nestes casos, observa, é preciso mudar a lei. Para tanto, destaca, é necessário que o Governo federal apresente uma proposta, pois os deputados não podem legislar sobre o assunto, segundo ele.
_ Na Alemanha, o tal do Avadan consiste numa simples folha de papel A4, assinada pelo município e pelo governo federal. Aqui, uma série de documentos e trâmites atrasa o processo.
Como membro da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados, Vieira propôs uma audiência pública sobre a situação do Vale. Ela ocorre na terça-feira, às 14h30, na Câmara.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Francamente!
Caros e estimados amigos leitores, que prazer estar novamente com vocês! Deixei de escrever por longos quatro dias, com o objetivo de alavancar um projeto que eu e uma equipe de feras do jornalismo e das artes gráficas estamos alinhavando. Em breve, daremos a todos este presente, e, asseguro, a satisfação será generalizada.
Pois bem, de volta à análise, vou iniciar o debate discutindo outra vez a aprovação do novo Código Ambiental de Santa Catarina, parido na semana passada por nossos nobres deputados estaduais.
Tava pensando: restam em Santa Catarina cerca de 7% da cobertura original de Mata Atlântica. No caso da Mata dos Pinhais, que cobre - ou cobria - o território catarinense entre o Planalto e o Oeste, este percentual é bem mais baixo. Nesta região, a araucária e suas florestas foram quase totalmente dizimadas.
Como, então, poderíamos imaginar - como imaginou quem propôs e aprovou a nova lei - que é preciso avançar sobre o pouquíssimo que resta da cobertura vegetal para desenvolver o Estado? Acabamos com 93% da floresta e isso não foi suficiente, agora vamos obter progresso e desenvolvimento consumindo o 7% que resta?! Francamente, senhores, francamente, não dá pra engolir, como diria o saudoso Mário Jorge Lobo Zagallo. As professoras Beate Frank
e Lúcia Sevegnani, ambas doutoras e ambientalistas respeitadas, chamam a atenção, em artigo, para mostras evidentes de como se tem mutilado as reservas naturais do Estado. A Faema vem sendo sucateada, enquanto um conjunto de leis aprovadas pela Assembléia entregam aos exploradores os últimos pedaços da floresta catarinense.
Pulgas e grilos
Também me deixa com uma pulga atrás da orelha - aliás, várias pulgas, ou melhor, grilos, muitos grilos - essa história de propaganda institucional pública antes dos filmes no cinema, conforme projeto em trâmite na Câmara de Vereadores de Blumenau. Isso me lembra aquela coisa da maquina de guerra estatal. O facismo e o nazismo da Itália e da Alemanha, na primeira metade do século 20, adoravam este tipo de expediente. Eles também "educavam" o povo...
Tudo bem, vamos lá, os tempos são outros, e a comunicação está definitivamente em nossa vida. Mas para isso a internet está aí, democratizando o espaço, dando ao leitor a opção de encontrar o melhor meio para consumir informação. Será que este é papel do poder público? Quem regulará estes conteúdos, para impedir que se transformem em mera ferramenta de propaganda política? O orçamento municipal, já debilitado, reservará mais verbas para comunicação e publicidade? Quem brigará por estes recursos? Teremos mais licitações, mais lobby, mais Bonificação de Valor - a abominável BV?? Os veículos hegemônicos, digitais e impressos, vão dividir sua bolada junto ao Erário? Quem vai aparecer mais nestas peças publicitárias, os secretários do DEM, do PSDB, do PMDB ou do PP?? Imagina a briga...
Enfim, penso que temos coisa mais importante a resolver. Que tal uma lei que beneficie o setor cristaleiro, que hoje vive uma agonia falimentar? Temos aí a questão do transporte público, caro e ineficiente, para ser debatida e deliberada. Também sofremos com problemas de congestionamento, saúde pública, educação. Temos que priorizar leis de interesse público, abrangentes, consistentes. Um povo que recebe bons serviços é um povo educado, satisfeito, civicamente consciente. Não precisa ver propaganda pública para saber que é cidadão. Duvido que na Dinamarca ou na Suíça alguma cidade obrigue quem vai ao cinema a assistir a propaganda política.
Pois bem, de volta à análise, vou iniciar o debate discutindo outra vez a aprovação do novo Código Ambiental de Santa Catarina, parido na semana passada por nossos nobres deputados estaduais.
Tava pensando: restam em Santa Catarina cerca de 7% da cobertura original de Mata Atlântica. No caso da Mata dos Pinhais, que cobre - ou cobria - o território catarinense entre o Planalto e o Oeste, este percentual é bem mais baixo. Nesta região, a araucária e suas florestas foram quase totalmente dizimadas.
Como, então, poderíamos imaginar - como imaginou quem propôs e aprovou a nova lei - que é preciso avançar sobre o pouquíssimo que resta da cobertura vegetal para desenvolver o Estado? Acabamos com 93% da floresta e isso não foi suficiente, agora vamos obter progresso e desenvolvimento consumindo o 7% que resta?! Francamente, senhores, francamente, não dá pra engolir, como diria o saudoso Mário Jorge Lobo Zagallo. As professoras Beate Frank
e Lúcia Sevegnani, ambas doutoras e ambientalistas respeitadas, chamam a atenção, em artigo, para mostras evidentes de como se tem mutilado as reservas naturais do Estado. A Faema vem sendo sucateada, enquanto um conjunto de leis aprovadas pela Assembléia entregam aos exploradores os últimos pedaços da floresta catarinense.
Pulgas e grilos
Também me deixa com uma pulga atrás da orelha - aliás, várias pulgas, ou melhor, grilos, muitos grilos - essa história de propaganda institucional pública antes dos filmes no cinema, conforme projeto em trâmite na Câmara de Vereadores de Blumenau. Isso me lembra aquela coisa da maquina de guerra estatal. O facismo e o nazismo da Itália e da Alemanha, na primeira metade do século 20, adoravam este tipo de expediente. Eles também "educavam" o povo...
Tudo bem, vamos lá, os tempos são outros, e a comunicação está definitivamente em nossa vida. Mas para isso a internet está aí, democratizando o espaço, dando ao leitor a opção de encontrar o melhor meio para consumir informação. Será que este é papel do poder público? Quem regulará estes conteúdos, para impedir que se transformem em mera ferramenta de propaganda política? O orçamento municipal, já debilitado, reservará mais verbas para comunicação e publicidade? Quem brigará por estes recursos? Teremos mais licitações, mais lobby, mais Bonificação de Valor - a abominável BV?? Os veículos hegemônicos, digitais e impressos, vão dividir sua bolada junto ao Erário? Quem vai aparecer mais nestas peças publicitárias, os secretários do DEM, do PSDB, do PMDB ou do PP?? Imagina a briga...
Enfim, penso que temos coisa mais importante a resolver. Que tal uma lei que beneficie o setor cristaleiro, que hoje vive uma agonia falimentar? Temos aí a questão do transporte público, caro e ineficiente, para ser debatida e deliberada. Também sofremos com problemas de congestionamento, saúde pública, educação. Temos que priorizar leis de interesse público, abrangentes, consistentes. Um povo que recebe bons serviços é um povo educado, satisfeito, civicamente consciente. Não precisa ver propaganda pública para saber que é cidadão. Duvido que na Dinamarca ou na Suíça alguma cidade obrigue quem vai ao cinema a assistir a propaganda política.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Até quando??!!
O jornalista Michel Imme enviou-me hoje um artigo assinado pela também jornalista e professora Elaine Tavares, que trabalha na Agência de Comunicação da UFSC. Um texto magnífico, esclarecedor, sobre a aprovação do novo Código Ambiental de Santa Catarina. Tomei a liberdade, mesmo que sob o risco de desaprovação da autora, de reproduzi-lo ao fim de meu comentário. Eu, que já tinha uma opinião formada sobre o assunto, reforcei minhas convicções com a leitura sugerida pelo Michel.
A verdade em torno disso tudo é uma só: nossos deputados e gestores públicos mais uma vez colocaram-se como cordeiros fiéis a interesses corporativistas. Mais uma vez o interesse de poucos foi sobreposto ao da maioria. Mais uma vez quem deveria pensar no bem comum pensou apenas em si próprio, no próprio bolso, no próprio bem estar. Essa, para mim, é a verdade.
Não consigo entender como, a despeito dos sinais que a natureza vem dando de seu esgotamento, o homem ainda tenha a coragem de fustigá-la ainda mais! O grande problema é que os rumos da humanidade, muitas vezes, continuam sendo definidos por uma ampla minoria. E logo nós, catarinenses, que podemos nos orgulhar de sustentar um dos trechos mais preservados de Mata Atlântica - o Parque das Nascentes, por exemplo, é a maior reserva municipal do país. Isso parece incomodar muito algumas pessoas, que não admitem ceder em prol da maioria, que não admitem abrir mão da ganância pelo bem de quem nos deu a vida: a mãe natureza.
Sinto-me absolutamente à vontade para tratar do assunto pela ligação que tenho com o meio ambiente. Minha família é proprietária de 110 alqueres de terra em São José do Cerrito, no Planalto Catarinense, a 30 quilômetros de Lages. Área equivalente a 1,8 milhão de metros quadrados. Somos todos apaixonados por aquele lugar, não derrubamos uma única das muitas árvores que há por lá. Nas redondezas, todos se questionam: por que os Pereira nunca venderam nenhuma das araucárias seculares que há no terreno?
Eu respondo: porque elas são as últimas em uma ampla extensão de terra. Algumas chegam fácil a 300 anos e atingem 1 metro de diâmetro, talvez mais. Posso dizer que as amamos tanto quanto nos amamos entre nós.
Além do amor, no entanto, já é possível vislumbrar o quanto elas valerão no futuro, se mantidas em pé. O quanto não pagarão turistas, inclusive estrangeiros, para visitar a propriedade que mantém exemplares tão imponentes e raros de uma espécie ameaçada de extinção??!! O quanto não renderá - assim como já rende - o turismo rural e ecológico, que cobra caro por um dia de hospedagem e atividades?
Se tivéssemos gestores e parlamentares minimamente inteligentes e esclarecidos, tanto quanto honestos e bem intencionados, teríamos aprovado uma lei que incentivasse a preservação e o ecoturismo. Este é o caminho do futuro, é o setor que mais cresce no mundo. Mas não, fizemos justamente o contrário. Vamos incentivar a criação de porcos, de aves e de monoculturas. Vamos produzir para abastecer as nações mais ricas e alimentar a nossa miséria. Miséria esta que engloba os pequenos produtores, aludidos por Elaine Tavares em seu texto. Estes continuarão pobres e miseráveis, mesmo com a lei que, manipulados, ajudaram a aprovar.
Os pequenos produtores não produzem próximo a rios nem precisam desmatar áreas virgens. Eles já têm áreas desmatadas para plantar. Não vencem por uma série de outros fatores, como falta de regulação do mercado, ausência de financiamentos, juros altos, insumos caros, produção desprotegida, crise externa. Não é a destruição da natureza que irá salvá-los, muito pelo contrário.
Segue o artigo da autora:
Pela ordem, senhores!
Por Elaine Tavares – jornalista
A Assembléia Legislativa de Santa Catarina votou e aprovou por amplíssima maioria o novo Código Estadual do Meio Ambiente. Não valeram os estudos, as contradições, a polêmica, nem mesmo a sombra da tragédia ambiental que se abateu sobre a região do Vale do Itajaí, que praticamente derreteu a cidade de Blumenau. Dos 41 deputados, 38 votaram sim, sete se abstiveram e dois estavam ausentes. Nas galerias lotadas de pequenos agricultores vindos de todos os cantos do estado, não havia espaço para a dúvida: o código era a salvação da lavoura. Usando o artifício da manipulação, os deputados transformaram toda discussão da lei num único ponto: o espaço nas margens do rio. Durante os discursos, foi o que predominou. Os ambientalistas, acossados em um pequeno espaço do plenário, eram vistos como inimigos. Ao final, o que parece ter ficado realmente claro é que os organismos de luta ambiental não conseguiram levar o debate aos agricultores, o que favoreceu aos governistas, que deram coloração ideológica ao tema. Tampouco os demais movimentos organizados, como os sindicatos mais combativos, se envolveram na luta. O resultado foi, em nome do “desenvolvimento”, a abertura de uma porta para a destruição ambiental do estado que já acumula a estatística de ser o que mais degrada a mata atlântica.
O cenário da trama
Plenário lotado, saguão da assembléia também. Como o espaço ficou pequeno, mais um telão foi montado na rua, sob uma imensa e cara estrutura de lona. Os discursos se sucediam em clima de guerra. As falas iam direto ao coração dos pequenos produtores, que passaram a figurar como os “grandes prejudicados”, caso o código não passasse. Assim, a lógica era essa: quem se manifestasse contra o código era automaticamente contra a pequena produção. Não havia meio termo.
Entre os milhares de pequenos produtores que se postavam em frente aos telões o clima era de confronto com qualquer um que parecesse ligado à luta ambiental. “A senhora é ambientalista?” Diante da negativa, as falas transbordaram em justificativas. E , no fundo, eles certamente tem razões para buscar a aprovação do código, embora não conheçam dele as “letras pequenas”. No geral, querem apenas defender o direito de plantar mais perto do rio e cortar as árvores que hoje estão proibidas de corte como a araucária e o angico.
Vindo da cidade de Bocaiúva, Ivone Rodrigues da Silva, mais conhecido como “Calça-Larga” não hesita em defender o código. Com ele vieram mais dezenas de agricultores lotando quatro ônibus. “A senhora veja que um pequeno produtor tem pouca terra. Se tiver de deixar 30 metros do rio, o que nos sobra? Nós vamos ficar sem espaço para plantar. E somos nós os que plantamos a comida de toda a gente. Como vamos produzir arroz, feijão?”
Fernando Carlos Mezzaroba veio de Videira, também num grupo de vários ônibus. A preocupação dele é com a madeira. “E as árvores? Eu tenho 400 pinheiros lá na minha terra e não posso fazer nada com eles. Então, o que a gente faz? A gente corta quando elas brotam, porque se vingar, não dá mais pra tirar. Isso é o que acaba com o pinheiro, porque ninguém mais quer plantar”.
Rubens Hoffmann, de Mirim Doce, também justificava o apoio na necessidade de usar o espaço perto do rio. “A gente planta, mas a gente conserva. A gente faz o manejo de forma correta. Nós fazemos isso a vida inteira. Agora tá esse problema todo porque não se pode mais cortar árvore. Nós sabemos como fazer. Ninguém aqui é contra preservar a natureza, mas nós precisamos sobreviver”.
Calça-Larga insistia em dizer que sem essa liberação das margens do rio os pequenos vão migrar para a cidade e causar mais problema social. “No campo a gente vive melhor, na cidade o caminho é o da marginalidade. Mas se não tivermos terra, como vamos fazer? Esses ambientalistas que são contra o código não conhecem o campo, não tem um palmo de terra. A gente sabe como usar e cuidar”.
Sem orientação
Os agricultores centram suas críticas nos órgãos de fiscalização. Segundo eles, a polícia ambiental tem mais poderes que a polícia normal. “Eles entram e prendem se a gente arrancar uma árvore. Nós não somos ladrões, isso não tem cabimento. A gente só quer plantar. Não tem ninguém para nos orientar, só sabem fazer autuação”.
Esse desabafo dos camponeses tem sua dose de sentido. Orientação é o que parece não haver, seja do ponto de vista do estado, seja do ponto de vista dos movimentos ambientalistas. O discurso contrário ao código não conseguiu se espalhar entre os agricultores, ficou confinado a debates acadêmicos. O governo, espertamente, bateu em dois pontos muito específicos e, com o apoio das entidades de classe, conseguiu a adesão de toda a gente. Poucos dos que faziam vigília em frente à Assembléia sabiam que os maiores beneficiados com o novo código são as gigantes empresas de aves e suínos. Estas sim é que encherão seus baús destruindo os rios e as florestas. Para se ter uma idéia, conforme dados do Levantamento Agropecuário Catarinense, dos aproximadamente seis milhões de hectares que servem à produção agrícola de Santa Catarina, 32,52% pertencem a apenas 1,9% dos proprietários rurais, detentores de grandes latifúndios. E aos pequenos, grande parte no sistema de integração do agronegócio, coube vir fazer a pressão.
Outra coisa que produtores reunidos na Praça Tancredo Neves não sabiam é que, se a preocupação pela aprovação era o uso das margens dos rios, então não precisava tanta mobilização, uma vez que o pequeno agricultor familiar, em função da reconhecida função social da sua atividade, já tem autorização legal, pelo próprio Código Florestal (lei 4.771/65) - que a lei estadual em questão pretende revogar - para utilizar as áreas de preservação permanente, desde que o faça mediante um sistema de manejo agroflorestal sustentável. Muitos deles ao receberem essa informação ficavam em silêncio, não acreditando.
O que predominou foi a ideologia do progresso. Nas faixas colocadas por todo o plenário e no lado de fora, esse era o recado. O campo quer embarcar no trem do progresso, mesmo que para isso a natureza tenha de ser sacrificada. O já antigo discurso de domínio do homem sobre a natureza segue pontificando, a despeito de todos os sinais que o planeta tem dado de que, se não há cuidado com a natureza, é o homem quem sofre. Nesse caso, ainda foi usado o desconhecimento dos camponeses sobre o Código Florestal, levando-os a sair de suas casas para defender um direito que eles já tem. Na verdade, o que vieram fazer na capital, depois de horas de viagem, foi garantir vantagens aos grandes, aos que já absorvem toda a sorte de privilégios e que estavam tolhidos pelo Código Florestal. Estes, pelo seu lado, não se fizeram visíveis na Assembléia.
Para um pequeno agricultor que levanta de madrugada e com sacrifício consegue plantar apesar de todas as condições contrárias, fica bem difícil aceitar o argumento de que eles não preservam a natureza. E, de certa forma, isso não é verdade. No geral, os pequenos produtores sabem muito bem como fazer o manejo dos recursos naturais. O que talvez não tenham ainda se dado conta é que, em Santa Catarina , muito da agricultura de subsistência foi desbancada pelo sistema integrado, no qual o pequeno segue sendo o dono de sua terrinha, mas está de forma irremediável dependente da grande empresa. É ela, em última instância, que dá as cartas e define as pautas.
Mas, sobre isso, os seus organismos de classe não fazem debate, a mídia aponta os ambientalistas como eco-chatos, terroristas, hippies e outros tantos adjetivos que induzem ao desmerecimento das causas, e o governo busca usar as dificuldades dos pequenos para favorecer, na verdade, aos grandes empresários do agronegócio. São apenas negócios. A natureza é só cenário para o chamado “desenvolvimento”. Para que venha a riqueza da “modernidade” é preciso destruir as margens dos rios, ocupar os topos de morro, garantir o corte indiscriminado das árvores e outras tantas aberrações. Os pequenos são engolidos por esse discurso e os grandes seguem desfrutando dos benefícios das leis especialmente preparadas para eles.
O fim da espécie
A aprovação do Código Estadual de Meio Ambiente deixa muito visível o significado do chamado sistema democrático-capitalista. Este é, na verdade, um sistema sem lei. Nele, as leis mudam sempre que for necessário atender aos interesses do grande capital. E, de forma extremamente competente, o sistema consegue enredar nas suas tramas aqueles que deveriam ser os seus maiores opositores. É a velha alienação já apontada por Marx.
De qualquer forma, a luta contra o código catarinense não termina aqui. Há muitas disputas a se fazer no campo jurídico e há tempo para se fazer a orientação necessária tanto entre os agricultores como na comunidade urbana. Vai depender da vontade política dos movimentos sociais, dos sindicatos, em assumir isso como uma luta conjunta em defesa da vida.
Os efeitos da destruição causados pelo modelo de desenvolvimento capitalista estão aí e se manifestam cotidianamente nas secas, nas enxurradas, nos dias de extremo calor, de extremo frio, no efeito estufa, nos tsunamis, nos ciclones, nos furacões, no derretimento das geleiras. Todas estas coisas acabam afetando a vida dos humanos em geral, como espécie. Segundo o cientista inglês James Lovelock, a terra é um sistema vivo que se auto-regula. Se o homem busca destruí-la com seu desejo de domínio, vai se dar mal. A terra tem condições de suportar os processos de degradação, ela realiza transições, vai se acomodando. Lovelock deixa claro que a destruição provocada pelo humano pode levar ao desaparecimento da espécie, não da terra. Esta se recupera.
O código ambiental de Santa Catarina legaliza o crime contra a natureza. Ela vai balançar, mas deve resistir. Já o homem... Talvez seja hora de se discutir de forma mais sistemática e responsável o modelo de desenvolvimento que nos é apresentado como panacéia de progresso e modernidade. Sem mudar o nosso modo de organizar a vida, fatalmente pereceremos como espécie.
Já o teatro do poder, protagonizado pelos deputados catarinenses, este deve ser visto como o que realmente é: um espaço de porta-vozes a soldo do grande capital. Não é à toa que seu bordão mais usado é o indefectível: “pela ordem, senhores”. Pois é, pela ordem!
A verdade em torno disso tudo é uma só: nossos deputados e gestores públicos mais uma vez colocaram-se como cordeiros fiéis a interesses corporativistas. Mais uma vez o interesse de poucos foi sobreposto ao da maioria. Mais uma vez quem deveria pensar no bem comum pensou apenas em si próprio, no próprio bolso, no próprio bem estar. Essa, para mim, é a verdade.
Não consigo entender como, a despeito dos sinais que a natureza vem dando de seu esgotamento, o homem ainda tenha a coragem de fustigá-la ainda mais! O grande problema é que os rumos da humanidade, muitas vezes, continuam sendo definidos por uma ampla minoria. E logo nós, catarinenses, que podemos nos orgulhar de sustentar um dos trechos mais preservados de Mata Atlântica - o Parque das Nascentes, por exemplo, é a maior reserva municipal do país. Isso parece incomodar muito algumas pessoas, que não admitem ceder em prol da maioria, que não admitem abrir mão da ganância pelo bem de quem nos deu a vida: a mãe natureza.
Sinto-me absolutamente à vontade para tratar do assunto pela ligação que tenho com o meio ambiente. Minha família é proprietária de 110 alqueres de terra em São José do Cerrito, no Planalto Catarinense, a 30 quilômetros de Lages. Área equivalente a 1,8 milhão de metros quadrados. Somos todos apaixonados por aquele lugar, não derrubamos uma única das muitas árvores que há por lá. Nas redondezas, todos se questionam: por que os Pereira nunca venderam nenhuma das araucárias seculares que há no terreno?
Eu respondo: porque elas são as últimas em uma ampla extensão de terra. Algumas chegam fácil a 300 anos e atingem 1 metro de diâmetro, talvez mais. Posso dizer que as amamos tanto quanto nos amamos entre nós.
Além do amor, no entanto, já é possível vislumbrar o quanto elas valerão no futuro, se mantidas em pé. O quanto não pagarão turistas, inclusive estrangeiros, para visitar a propriedade que mantém exemplares tão imponentes e raros de uma espécie ameaçada de extinção??!! O quanto não renderá - assim como já rende - o turismo rural e ecológico, que cobra caro por um dia de hospedagem e atividades?
Se tivéssemos gestores e parlamentares minimamente inteligentes e esclarecidos, tanto quanto honestos e bem intencionados, teríamos aprovado uma lei que incentivasse a preservação e o ecoturismo. Este é o caminho do futuro, é o setor que mais cresce no mundo. Mas não, fizemos justamente o contrário. Vamos incentivar a criação de porcos, de aves e de monoculturas. Vamos produzir para abastecer as nações mais ricas e alimentar a nossa miséria. Miséria esta que engloba os pequenos produtores, aludidos por Elaine Tavares em seu texto. Estes continuarão pobres e miseráveis, mesmo com a lei que, manipulados, ajudaram a aprovar.
Os pequenos produtores não produzem próximo a rios nem precisam desmatar áreas virgens. Eles já têm áreas desmatadas para plantar. Não vencem por uma série de outros fatores, como falta de regulação do mercado, ausência de financiamentos, juros altos, insumos caros, produção desprotegida, crise externa. Não é a destruição da natureza que irá salvá-los, muito pelo contrário.
Segue o artigo da autora:
Pela ordem, senhores!
Por Elaine Tavares – jornalista
A Assembléia Legislativa de Santa Catarina votou e aprovou por amplíssima maioria o novo Código Estadual do Meio Ambiente. Não valeram os estudos, as contradições, a polêmica, nem mesmo a sombra da tragédia ambiental que se abateu sobre a região do Vale do Itajaí, que praticamente derreteu a cidade de Blumenau. Dos 41 deputados, 38 votaram sim, sete se abstiveram e dois estavam ausentes. Nas galerias lotadas de pequenos agricultores vindos de todos os cantos do estado, não havia espaço para a dúvida: o código era a salvação da lavoura. Usando o artifício da manipulação, os deputados transformaram toda discussão da lei num único ponto: o espaço nas margens do rio. Durante os discursos, foi o que predominou. Os ambientalistas, acossados em um pequeno espaço do plenário, eram vistos como inimigos. Ao final, o que parece ter ficado realmente claro é que os organismos de luta ambiental não conseguiram levar o debate aos agricultores, o que favoreceu aos governistas, que deram coloração ideológica ao tema. Tampouco os demais movimentos organizados, como os sindicatos mais combativos, se envolveram na luta. O resultado foi, em nome do “desenvolvimento”, a abertura de uma porta para a destruição ambiental do estado que já acumula a estatística de ser o que mais degrada a mata atlântica.
O cenário da trama
Plenário lotado, saguão da assembléia também. Como o espaço ficou pequeno, mais um telão foi montado na rua, sob uma imensa e cara estrutura de lona. Os discursos se sucediam em clima de guerra. As falas iam direto ao coração dos pequenos produtores, que passaram a figurar como os “grandes prejudicados”, caso o código não passasse. Assim, a lógica era essa: quem se manifestasse contra o código era automaticamente contra a pequena produção. Não havia meio termo.
Entre os milhares de pequenos produtores que se postavam em frente aos telões o clima era de confronto com qualquer um que parecesse ligado à luta ambiental. “A senhora é ambientalista?” Diante da negativa, as falas transbordaram em justificativas. E , no fundo, eles certamente tem razões para buscar a aprovação do código, embora não conheçam dele as “letras pequenas”. No geral, querem apenas defender o direito de plantar mais perto do rio e cortar as árvores que hoje estão proibidas de corte como a araucária e o angico.
Vindo da cidade de Bocaiúva, Ivone Rodrigues da Silva, mais conhecido como “Calça-Larga” não hesita em defender o código. Com ele vieram mais dezenas de agricultores lotando quatro ônibus. “A senhora veja que um pequeno produtor tem pouca terra. Se tiver de deixar 30 metros do rio, o que nos sobra? Nós vamos ficar sem espaço para plantar. E somos nós os que plantamos a comida de toda a gente. Como vamos produzir arroz, feijão?”
Fernando Carlos Mezzaroba veio de Videira, também num grupo de vários ônibus. A preocupação dele é com a madeira. “E as árvores? Eu tenho 400 pinheiros lá na minha terra e não posso fazer nada com eles. Então, o que a gente faz? A gente corta quando elas brotam, porque se vingar, não dá mais pra tirar. Isso é o que acaba com o pinheiro, porque ninguém mais quer plantar”.
Rubens Hoffmann, de Mirim Doce, também justificava o apoio na necessidade de usar o espaço perto do rio. “A gente planta, mas a gente conserva. A gente faz o manejo de forma correta. Nós fazemos isso a vida inteira. Agora tá esse problema todo porque não se pode mais cortar árvore. Nós sabemos como fazer. Ninguém aqui é contra preservar a natureza, mas nós precisamos sobreviver”.
Calça-Larga insistia em dizer que sem essa liberação das margens do rio os pequenos vão migrar para a cidade e causar mais problema social. “No campo a gente vive melhor, na cidade o caminho é o da marginalidade. Mas se não tivermos terra, como vamos fazer? Esses ambientalistas que são contra o código não conhecem o campo, não tem um palmo de terra. A gente sabe como usar e cuidar”.
Sem orientação
Os agricultores centram suas críticas nos órgãos de fiscalização. Segundo eles, a polícia ambiental tem mais poderes que a polícia normal. “Eles entram e prendem se a gente arrancar uma árvore. Nós não somos ladrões, isso não tem cabimento. A gente só quer plantar. Não tem ninguém para nos orientar, só sabem fazer autuação”.
Esse desabafo dos camponeses tem sua dose de sentido. Orientação é o que parece não haver, seja do ponto de vista do estado, seja do ponto de vista dos movimentos ambientalistas. O discurso contrário ao código não conseguiu se espalhar entre os agricultores, ficou confinado a debates acadêmicos. O governo, espertamente, bateu em dois pontos muito específicos e, com o apoio das entidades de classe, conseguiu a adesão de toda a gente. Poucos dos que faziam vigília em frente à Assembléia sabiam que os maiores beneficiados com o novo código são as gigantes empresas de aves e suínos. Estas sim é que encherão seus baús destruindo os rios e as florestas. Para se ter uma idéia, conforme dados do Levantamento Agropecuário Catarinense, dos aproximadamente seis milhões de hectares que servem à produção agrícola de Santa Catarina, 32,52% pertencem a apenas 1,9% dos proprietários rurais, detentores de grandes latifúndios. E aos pequenos, grande parte no sistema de integração do agronegócio, coube vir fazer a pressão.
Outra coisa que produtores reunidos na Praça Tancredo Neves não sabiam é que, se a preocupação pela aprovação era o uso das margens dos rios, então não precisava tanta mobilização, uma vez que o pequeno agricultor familiar, em função da reconhecida função social da sua atividade, já tem autorização legal, pelo próprio Código Florestal (lei 4.771/65) - que a lei estadual em questão pretende revogar - para utilizar as áreas de preservação permanente, desde que o faça mediante um sistema de manejo agroflorestal sustentável. Muitos deles ao receberem essa informação ficavam em silêncio, não acreditando.
O que predominou foi a ideologia do progresso. Nas faixas colocadas por todo o plenário e no lado de fora, esse era o recado. O campo quer embarcar no trem do progresso, mesmo que para isso a natureza tenha de ser sacrificada. O já antigo discurso de domínio do homem sobre a natureza segue pontificando, a despeito de todos os sinais que o planeta tem dado de que, se não há cuidado com a natureza, é o homem quem sofre. Nesse caso, ainda foi usado o desconhecimento dos camponeses sobre o Código Florestal, levando-os a sair de suas casas para defender um direito que eles já tem. Na verdade, o que vieram fazer na capital, depois de horas de viagem, foi garantir vantagens aos grandes, aos que já absorvem toda a sorte de privilégios e que estavam tolhidos pelo Código Florestal. Estes, pelo seu lado, não se fizeram visíveis na Assembléia.
Para um pequeno agricultor que levanta de madrugada e com sacrifício consegue plantar apesar de todas as condições contrárias, fica bem difícil aceitar o argumento de que eles não preservam a natureza. E, de certa forma, isso não é verdade. No geral, os pequenos produtores sabem muito bem como fazer o manejo dos recursos naturais. O que talvez não tenham ainda se dado conta é que, em Santa Catarina , muito da agricultura de subsistência foi desbancada pelo sistema integrado, no qual o pequeno segue sendo o dono de sua terrinha, mas está de forma irremediável dependente da grande empresa. É ela, em última instância, que dá as cartas e define as pautas.
Mas, sobre isso, os seus organismos de classe não fazem debate, a mídia aponta os ambientalistas como eco-chatos, terroristas, hippies e outros tantos adjetivos que induzem ao desmerecimento das causas, e o governo busca usar as dificuldades dos pequenos para favorecer, na verdade, aos grandes empresários do agronegócio. São apenas negócios. A natureza é só cenário para o chamado “desenvolvimento”. Para que venha a riqueza da “modernidade” é preciso destruir as margens dos rios, ocupar os topos de morro, garantir o corte indiscriminado das árvores e outras tantas aberrações. Os pequenos são engolidos por esse discurso e os grandes seguem desfrutando dos benefícios das leis especialmente preparadas para eles.
O fim da espécie
A aprovação do Código Estadual de Meio Ambiente deixa muito visível o significado do chamado sistema democrático-capitalista. Este é, na verdade, um sistema sem lei. Nele, as leis mudam sempre que for necessário atender aos interesses do grande capital. E, de forma extremamente competente, o sistema consegue enredar nas suas tramas aqueles que deveriam ser os seus maiores opositores. É a velha alienação já apontada por Marx.
De qualquer forma, a luta contra o código catarinense não termina aqui. Há muitas disputas a se fazer no campo jurídico e há tempo para se fazer a orientação necessária tanto entre os agricultores como na comunidade urbana. Vai depender da vontade política dos movimentos sociais, dos sindicatos, em assumir isso como uma luta conjunta em defesa da vida.
Os efeitos da destruição causados pelo modelo de desenvolvimento capitalista estão aí e se manifestam cotidianamente nas secas, nas enxurradas, nos dias de extremo calor, de extremo frio, no efeito estufa, nos tsunamis, nos ciclones, nos furacões, no derretimento das geleiras. Todas estas coisas acabam afetando a vida dos humanos em geral, como espécie. Segundo o cientista inglês James Lovelock, a terra é um sistema vivo que se auto-regula. Se o homem busca destruí-la com seu desejo de domínio, vai se dar mal. A terra tem condições de suportar os processos de degradação, ela realiza transições, vai se acomodando. Lovelock deixa claro que a destruição provocada pelo humano pode levar ao desaparecimento da espécie, não da terra. Esta se recupera.
O código ambiental de Santa Catarina legaliza o crime contra a natureza. Ela vai balançar, mas deve resistir. Já o homem... Talvez seja hora de se discutir de forma mais sistemática e responsável o modelo de desenvolvimento que nos é apresentado como panacéia de progresso e modernidade. Sem mudar o nosso modo de organizar a vida, fatalmente pereceremos como espécie.
Já o teatro do poder, protagonizado pelos deputados catarinenses, este deve ser visto como o que realmente é: um espaço de porta-vozes a soldo do grande capital. Não é à toa que seu bordão mais usado é o indefectível: “pela ordem, senhores”. Pois é, pela ordem!
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Era a hora?
Li na Folha de Blumenau, hoje, que as nomeações dos cargos que ainda não foram preenchidos no governo municipal ficarão para a segunda semana de abril. Entendo que este governo é a continuidade do outro e que cautela na composição da máquina até é bom, mas já não é tempo demais? Outra coisa: esse povo que está trabalhando como "voluntário" tem qual objetivo, contribuir para o bem estar da população blumenauense, imbuídos de louvável espírito cívico? E ainda: se tá dando pra tocar o barco faltando tanta gente, não é possível vislumbrar a possibilidade de manter a máquina funcionando com um corpo bem mais enxuto? Teríamos uma boa economia de recursos públicos.
Respostas que só o prefeito pode dar. Aliás, este encontro do Democratas em Nova York, onde está Kleinübing, bem poderia ter sido organizado em outra hora. Sabemos que JPK trabalhou arduamente desde novembro e que o objetivo da viagem - conhecer modelos bem sucedidos de gestão pública - pode até ser nobre, mas ainda há muitos problemas na cidade. O cenário de crise, da mesma forma, deixa pouco simpática a iniciativa do partido, que deve estar gastando uns bons trocados em Washington. Cidadezinha cara é aquela, onde uma cerveja chega a custar 7 dólares - incluída a sagrada gorjeta do garçon - e o aluguel de uma espelunca atinge a bagatela de 1,5 mil dólares. Imagine o quanto a turma democrata não está gastando só com diária de hotel e comida em restaurante?!
Respostas que só o prefeito pode dar. Aliás, este encontro do Democratas em Nova York, onde está Kleinübing, bem poderia ter sido organizado em outra hora. Sabemos que JPK trabalhou arduamente desde novembro e que o objetivo da viagem - conhecer modelos bem sucedidos de gestão pública - pode até ser nobre, mas ainda há muitos problemas na cidade. O cenário de crise, da mesma forma, deixa pouco simpática a iniciativa do partido, que deve estar gastando uns bons trocados em Washington. Cidadezinha cara é aquela, onde uma cerveja chega a custar 7 dólares - incluída a sagrada gorjeta do garçon - e o aluguel de uma espelunca atinge a bagatela de 1,5 mil dólares. Imagine o quanto a turma democrata não está gastando só com diária de hotel e comida em restaurante?!
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